
A vida das 14 comunidades da paróquia de San António anda à volta da agricultura. A cultura da cana de açúcar, do milho e do feijão é a base de sustento para a grande maioria do povo índio Tenek que aqui habita e as grandes pradarias de gado bovino da área são de ricos proprietários vivendo nas cidades. A população da paróquia anda pelos 10 mil habitantes, sendo cerca de metade com menos de 25 anos. Daí que embora a educação esteja espalhada e presente em todas as comunidades, pela escola primária ou secundária, há na região uma falta de escolas intermédias e superiores onde os jovens possam continuar a sua formação profissional ou universitária. Pela sua humildade e sentido da comunidade, torna-se difícil aos jovens Tenek singrar no meio competitivo e individualista da sociedade urbana e global onde as universidades e outras oportunidades de emprego aparecem. A emigração, tanto para os Estados Unidos como para o Canadá, é uma das poucas saídas possíveis para a população daquela zona.
É neste ambiente humano, onde apesar de tudo as condições essenciais de vida e de saúde não faltam, que está presente a Igreja e a fé cristã. Uma grande maioria são baptizados, até porque a paróquia foi fundada em 1776, e o povo huasteca tem uma sensibilidade religiosa própria, de origem pré-cristã, que empresta um carácter singular à sua vivência da fé cristã, tanto na sua manifestação artística e simbólica como na sua organização e dinamismo. Tal tivemos a alegria de poder experimentar ao participarmos em vários momentos celebrativos que decorreram durante a nossa visita. Logo no dia da nossa chegada, diz-nos o P. Tiago, que tem de ir a uma das comunidades, chamada Tocoy, para uma reunião acerca de dois grupos de tipo carismático que nem sempre se entendem no desempenho das suas funções e serviços de animação litúrgica no seio da comunidade. Ambos nasceram do fervor e dinamismo da própria comunidade, em resposta a apelos de nova evangelização, mas que viriam a chocar entre si por questões de algum protagonismo ou liderança. Era grande o número dos que esperavam, quando chegamos. Sabendo o P. Tiago que esta cultura e comunidades vivem na base de acordos, foi conduzindo o encontro em ordem a fomentar a comunhão, na base do diálogo, da concertação e da partilha. Logo de início deixou que cada grupo iniciasse uma oração, que fizeram com recurso a uma leitura bíblica e a um cântico. Depois foi ocasião de o pároco, P: Tiago, fazer uma longa prelecção, com exemplos muito práticos, tirados alguns da vida campesina, sobre o interesse da união e a necessidade da partilha para tornar a comunidade mais forte e mais testemunhante. O P. Joaquim Dionísio, pároco da minha aldeia, confidenciou-me ao ouvido, quando o P. Tiago fazia esta dinâmica: “Estou a rever S. Paulo fomentando a unidade nas suas comunidades”! Depois do P. Tiago falar outros foram chamados a intervir, sobretudo os responsáveis e lideres. Um ou outro em língua Tenek, para certamente melhor se fazer compreender. No final, tendo acordado trabalhar em conjunto efectivamente durante as celebrações festivas que se aproximavam, procedeu-se a um momento de reconciliação e de paz que, mesmo na sua simplicidade e aparente “frieza”, nos pareceu sincero e real. Cinco dias depois pudemos experimentar uma celebração festiva nessa comunidade onde todos se empenharam e se uniram as mãos para melhor louvar a Deus, servir a comunidade e honrar nossa Senhora de Guadalupe. Nesta comunidade da paróquia, como em qualquer uma das outras 14, há sempre um coordenador, catequistas, ministros da comunhão e ministros do canto, que juntamente com o pároco constituem o conselho da comunidade. Também a nível paroquial há um conselho que se reúne regularmente, durante uma manhã inteira, e onde há representantes de todas as comunidades e de todos os organismos paroquiais. Como se procura animar tais encontros na dinâmica dos acordos que lhes é muito característica culturalmente, é preciso dedicar-lhes muito tempo. Assim nos confidenciaram o P. Tiago e o P. Swavek, espiritano polaco, que partilham a dinamização cristã destas comunidades.

A 12 de Dezembro de cada ano há festa no México. Em todo o país se celebra a “Guadalupana” ou Nossa Senhora de Guadalupe. Mesmo sem termos ido visitar o dito santuário, tal como muitos dos próprios mexicanos, dêmo-nos conta de quão importante é para a sua vivência cristã o culto a Nossa Senhora de Guadalupe. Na paróquia de San António decorria uma peregrinação da imagem de Nossa Senhora, de comunidade em comunidade. Todos se congregavam, pequenos, jovens e adultos, e sem grandes alaridos, mas com paciência, serenidade e veneração iam-se manifestando diante da Mãe de Guadalupe. Primeiro impondo-lhe um colar de flores. Depois incensando bem a imagem. Para depois se prostrar diante dela, acendendo velas e rezando. Não só individualmente como também em família. Particularmente tocante é o interesse dos próprios jovens que na tarde do dia 11, se reúnem na catedral, junto com o seu bispo, e recebem da sua mão uma luz, género chama olímpica, a que chamam “antorcha”, acesa no círio pascal, e percorrem em jeito de estafeta os 53 kms que os separa da sua paróquia, para aí chegarem no inicio da vigília pela meia noite. Quando o missionário recebe comida do povo, é convidado para ir a suas casas é sinal de que já faz parte das suas famílias. Já foi bem acolhido e a sua presença é sinal de Esperança e de Paz. Quando o missionário conhece bem o povo, até pelo próprio nome, e sabe da sua vida, costumes e cultura, então pode entregar-se ainda mais à Missão de Evangelizar porque o terreno está preparado. Alegro-me por ter encontrado destes missionários e terem partilhado connosco um pouco desta riqueza, desta vida e até daquelas comidas picantes que “picam e repicam”. Para eles, bem mais merecido do que a nós a quem tantas vezes brindaram, vai o nosso “fortíssimo aplauso”.
». Cl 1,24-29